Alimentos Orgânicos ou Convencionais?

consea organicos

Aconteceu entre as atividades da semana da Alimentação, organizada pelo Centro de Segurança Alimentar da Coordenadoria de Desenvolvimento dos Agronegócios – CODEAGRO da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, nos dias 13 a 16 de outubro, um importante debate a respeito do tema “Alimentos Orgânicos”.

Os convidados a debater sobre este assunto foram a Dra. Silvia Cozzolino (nutricionista, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e atual presidente do Conselho Regional de Nutricionistas da 3ª região (CRN3), Dra. Ondalva Serrano (Doutora em Agronomia e ex-docente pela ESALQ-USP. Fundadora e conselheira de gestão da AHPCE) e Dra. Anne Veronesi (Engenheira Agrônoma da Coordenadoria de Defesa Agropecuária de São Paulo).

A mesa de debates foi coordenada por Elaine Bastos (Secretaria Executiva do CONSEA-SP), que organizou as explanações direcionando perguntas específicas para cada um dos convidados. Resumimos aqui um pouco das questões respondidas pelos profissionais.

Primeiramente, contextualizando o cenário nacional de orgânicos, temos que o Brasil é forte na produção orgânica de açúcar, soja, café, óleos, amêndoas, mel e frutas. Estima-se que o mercado de orgânicos no mundo supere 40 bilhões de dólares por ano. Segundo o Instituto Biodinâmico (IBD), responsável por certificações no país, é possível que o Brasil já tenha quase 1 milhão de hectares em produção orgânica. Destes, 95% são produtores de pequeno e médio porte, exceto o açúcar, que é fabricado apenas por usinas.

Elaine Bastos: O Alimento Orgânico (AO) é mais nutritivo que o alimento convencional?
Em resposta a esta questão, a Dra. Silvia Cozzolino esclareceu que, segundo a literatura, os alimentos orgânicos podem conter maior quantidade de compostos bioativos que os alimentos cultivados de forma convencional, a justificativa para isto seria o fato de que a planta (isenta de defensivos químicos) produz mais compostos bioativos como forma de defesa e sobrevivência. Porém, ainda não existe consenso científico sobre este assunto, sendo necessárias mais pesquisas. Lembrou que, apesar dos AO representarem maior garantia à saúde humana (por não conterem resíduos de defensivos químicos), para se pensar em uma recomendação geral de consumo dos AO, é necessário garantir a disponibilidade a preços adequados a toda população, e isto ainda não é a realidade em nosso país. Reforçou que precisamos atentar a qualidade de nossa dieta, garantindo a presença de verduras, legumes e frutas em quantidades adequadas para a promoção da saúde.
A Dra Anne complementou a fala da Dra Silvia dizendo que, apesar das possíveis diferenças apontadas em relação aos compostos bioativos, o mesmo não se verifica para os macronutrientes (carboidratos, proteínas e lipídeos), uma vez que estudos comparativos mostraram que não existem diferenças de macronutrientes entre orgânicos e convencionais. Porém, reforçou que é indiscutível a superioridade dos alimentos livres de resíduos químicos a saúde humana.

Elaine Bastos: No Brasil é possível pensar em atingir uma produção 100% orgânica?
Esta questão foi respondida pela Dra. Ondalva, a qual foi enfática ao afirmar que não. Lembrou que na década de 70 ocorreu o estímulo à produção agrícola, por meio de financiamento governamental, atrelado a exigência de que 15% do recurso fosse destinado a aquisição de agrotóxicos, pensando na maior garantia de colheita e menor risco de perda da produção. Segundo a Dra Ondalva, para aumentar a produção de orgânicos no país, não basta apenas contar com investimentos financeiros governamentais, é preciso investir em maior capacitação dos produtores, auxiliando-os com maior saber tecnológico do manejo natural, que exige a produção orgânica, respeitando o solo, a água, a microvida e todo o nosso ecossistema. Isto, infelizmente, se perdeu ao longo de nossa evolução tecnológica, o Brasil não dispõe de técnicos qualificados para capacitar os agricultores sobre este assunto.
Dra Anne complementou a fala da Dra Ondalva dizendo que concorda com a questão apontada, sobre a necessidade de capacitar o produtor, mas informou que o Brasil precisa pensar também em melhor formar os engenheiros agrônomos e técnicos agrícolas, uma vez que desconhece a presença de alguma disciplina, nos currículos de formação, que incluam este tema específico de agricultura orgânica ou familiar, e, assim, a maior parte dos profissionais graduados saem sem formação adequada na área de produção orgânica sustentável.

Elaine Bastos: Existe algum plano ou intenção no Brasil para se deixar de utilizar agrotóxicos?
Para responder esta questão a Dra Anne, esclareceu que agrotóxico é tóxico, porque precisa matar uma praga que ataca a plantação para que o produtor possa colher, devendo ter uma toxicidade necessária para exercer sua função específica. Porém, todos os insumos químicos autorizados e utilizados na agricultura no Brasil são seguros a saúde humana, quando utilizados adequadamente, respeitando-se todas as recomendações de utilização, presentes nos rótulos e bulas dos produtos. Desta forma, será garantido um limite máximo de resíduos que é seguro à saúde.

Levantou a questão se “é possível o consumidor ter certeza que o alimento convencional não tem nenhum resíduo químico em quantidade prejudicial?”. Respondeu dizendo que não é possível ter certeza, porém no Brasil existe fiscalização bem rigorosa e legislação das mais exigentes do mundo. Afirmou que apesar de todo rigor existente, todos os dias os noticiários trazem informações de produtos adulterados, ou contaminados por agentes químicos prejudiciais, justificando que pessoas inescrupulosas existem em todas as áreas e que os órgãos competentes estão fiscalizando e punindo os responsáveis. Informou que até na agricultura orgânica, a última avaliação feita com AO produzidos no Paraná, revelou que quase todos estavam contaminados por agentes químicos. Esclareceu que isto ocorre entre os orgânicos, pois ainda não se tem um esquema bem definido de certificação dos AO. As perspectivas indicam que iremos crescer muito na produção de AO, mas para isto precisamos ter o apoio legal, apoio governamental, investimentos em ensino e pesquisas e em certificação que garanta que não esteja contaminado com resíduos de agrotóxicos e também microbiológicos. Ela afirmou que acredita que o Brasil não está muito atrasado nesta questão e que no futuro teremos muito mais produção orgânica e muito mais saúde. O orgânico não significa que você não utilizou nenhum produto na produção, você pode ter produtos com contaminação microbiana, lembrando do caso que ocorreu na Alemanha que algumas pessoas morreram por contaminação com uma bactéria, assim lembrou que as pessoas precisam atentar para a higienização dos alimentos antes de consumir “não é porque ele é orgânico que você não precisa higienizar antes de comer”, reforçou ela. “O cuidado precisa existir nos dois tipos de produção, na convencional e na orgânica, mas claro que na convencional o cuidador precisa ter muito mais cuidados, devido ao alto risco de toxicidade”.

A seguir o debate foi aberto para responder às perguntas feitas pela plateia.

Plateia: Por que o produto orgânico é mais caro?

Dra. Ondalva respondeu dizendo que no sistema orgânico, é preciso buscar uma solução que não envolva produtos sintéticos (antibióticos, adubos químicos), assim a diferença de filosofia retrata os diferentes sistemas de produção. No sistema orgânico que produz de forma mais saudável, a quantidade produzida é menor, assim este baixo volume produzido afeta diretamente sua distribuição e seu preço final. Quando houver um equilíbrio entre oferta e procura acredita-se que os preços irão abaixar.

Plateia: Quais são os problemas com a Certificação?
Dra Ondalva respondeu dizendo que o Brasil dispõe de recursos para financiamento da produção orgânica, porém os produtores têm dificuldades de se credenciar para receber, pois grande parte dos produtores de AO não tem propriedade, recursos de reserva para pagar amortização ao financiamento. Além disto, os produtores orgânicos que possuem propriedades próximas (vizinhas) a propriedades com produção convencionais podem ter seu solo contaminado com os agrotóxicos dos vizinhos, prejudicando, assim, o seu processo de certificação.

Plateia: A higienização dos alimentos elimina alguma quantidade de resíduos químicos?
A resposta da Dra Anne foi “em parte”, esclarecendo que existem dois tipos de agrotóxicos (o de contato e o sistêmico), o de contato não circula no interior do alimento, só fica exposto, e este tipo conseguimos retirar com a higienização do alimento. Afirmou que se no cultivo se obedece o período de carência (tempo entre a aplicação e a colheita) não deveria ter este resíduo. Já o outro tipo de defensivo (que equivale a 50% dos agrotóxicos utilizados) tem ação sistêmica, ou seja fica circulando no interior do alimento e, assim, não pode ser removido com a higienização, ele serve para matar a praga quando ela consumir o alimento. Outro fator importante é que a quantidade de resíduo não deve ser superior a recomendação. Daí a importância das análises de resíduos.
Os dados oficiais mostram que 5% dos alimentos estão acima do limite máximo de resíduos e estes dados estão próximos aos dados europeus.
Outra situação que acontece é a utilização de agrotóxicos não certificados no Brasil para aquela cultura, mas isto não significa que estão inadequados, pois estes produtos são legalizados em outros países.
No Brasil existem cerca de 104 e 105 empresas que produzem agrotóxicos (20% são multinacionais), as nacionais trabalham com os genéricos. Os princípios ativos utilizados nos agrotóxicos químicos são todos importados. Alguns princípios ativos são produzidos em outros países e certificados aqui no Brasil.

Perspectivas Futuras
Ainda existem muitos desafios a serem enfrentados, mas o Brasil está caminhando rumo a um futuro melhor no aspecto de melhoria da qualidade e segurança na produção de alimentos. O governo precisa se dedicar a agricultura orgânica com programas desenhados para atender a maior produção e a qualidade dos alimentos produzidos.
Devemos nos preocupar com a nutrição e saúde não só olhando para o alimento, mas também para o ambiente, pela manutenção da biodiversidade e do equilíbrio ambiental.
Para finalizar Dra. Milene Massaro Raimundo – diretora do Centro de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável – CESANS e responsável pela organização do evento agradeceu a participação e interesse de todos.

Para ler mais sobre o assunto seguem alguns links de interesse:

http://www.agricultura.gov.br/vegetal/agrotoxicos

http://www.cnph.embrapa.br/organica/pdf/porque_organicos_caros.pdf

http://www.ecodesenvolvimento.org/posts/2014/vegetais-organicos-contem-60-mais-determinados?tag=universidades

http://www.idec.org.br/em-acao/em-foco/estudo-comprova-que-alimentos-organicos-so-mais-saudaveis

http://www.estadao.com.br/noticias/geral,organicos-e-convencionais-tem-pouca-diferenca-nutricional-imp-,925992

http://organicosbrasil.wordpress.com/2012/09/06/stanford-reacende-polemica-sobre-valor-nutricional-de-organicos-e-convencionais-com-argumentos-parciais/

http://g1.globo.com/sao-paulo/sao-jose-do-rio-preto-aracatuba/noticia/2014/01/organicos-apresentam-expansao-na-producao-e-interesse-de-consumo.html

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/112302-luxo-organico.shtml

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