Baixos níveis de HDL (“bom colesterol”) podem predizer muitos riscos à saúde, e, não apenas a doença cardíaca.

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Será que maiores níveis de HDL “o bom colesterol” garantem boa saúde cardiovascular para todos os indivíduos?

Os conhecimentos atuais evidenciam que um alto nível de colesterol total é fator de risco para doenças cardíacas. Estudos importantes demonstraram forte associação entre baixos níveis de colesterol LDL (“mau colesterol”) e um menor risco de desenvolver doenças cardíacas e que a redução do colesterol LDL com medicamentos, tais como estatinas, auxiliam na redução do risco cardiovascular (CV).

Com relação ao HDL colesterol (conhecido como o “bom colesterol”), tem sido amplamente aceito, nas últimas décadas, que ele desempenha um papel importante no desenvolvimento morbimortalidade por doenças cardiovasculares (1-4 ). Os primeiros estudos epidemiológicos demonstraram uma relação linear inversa entre os níveis de HDL e eventos CV, estes estudos mostraram que cada aumento de 1 mg /dL no nível de HDL foi associado com menores taxas de mortes por DCV (3% a 4% mais baixas) (2 , 5 , 6), sugerindo que a obtenção de níveis mais elevados de HDL poderia reduzir o risco de eventos cardiovasculares. No entanto, recentes ensaios randomizados que utilizaram medicamentos para elevar os níveis de HDL não tiveram sucesso em verificar melhoras nos resultados clínicos para eventos CV, desafiando o que estava estabelecido (7 – 11) .

Estudos epidemiológicos e genéticos recentes sugerem que maiores níveis de HDL podem não ser preditivos de bons resultados cardiovasculares para todos os indivíduos (12 – 15). Além disso, são conhecidas associações entre o nível de HDL e outros fatores demográficos e de estilo de vida, como tabagismo, obesidade e atividade física limitada (2). Estes dados sugerem que o nível de HDL pode se comportar como uma variável de confusão, e, assim, questiona-se a plausibilidade do nível de HDL como um fator de risco específico para a doença cardiovascular (16) .

Para tentar entender melhor estes achados um estudo (17), recém-publicado (nov/2016), no Journal of the American College of Cardiology lança alguma luz sobre esta questão.

Neste estudo de coorte do Canadá, que uniu, 17 diferentes fontes de dados em nível individual e avaliou-se mais de 631mil pessoas, os autores descobriram que os níveis de colesterol HDL foram associados a uma série de fatores que afetam a saúde, incluindo baixo nível socioeconômico, estilos de vida pouco saudáveis, hipertrigliceridemia, outros fatores de risco cardíaco, e maiores episódios de doenças por outras causas. Assim, a associação entre o colesterol HDL baixo e resultados cardiovasculares piores pode ser devido a estes outros fatores (que antecedem os baixos níveis de HDL) e não aos baixos níveis de HDL em sí.

Este estudo concluiu que tanto os baixos níveis de colesterol HDL (<40mg/dL para homens e <50mg/dL para mulheres) quanto os altos níveis de HDL (>80 a 90mg/dL) foram associados não só com maior risco de morte por causas cardiovasculares, mas também maior risco de mortes por causas não cardiovasculares (como câncer) em comparação com aqueles que têm níveis médios de colesterol HDL. Os modelos de risco foram ajustados para IMC, idade, sexo, tabagismo, etilismo, uso de medicamento, níveis de colesterol sérico e, co-morbidades.

Esta conclusão levanta a hipótese de que o baixo colesterol HDL possa estar associado não só a causas que levam a maior risco de doença cardíaca como também a maior risco de câncer e outras doenças.

Observou-se neste estudo que a relação entre os níveis de HDL e mortalidade pode ser mediada através de relações complexas de muitos fatores. Isto fica mais claro quando se observa que o padrão predominante dos indivíduos com baixos níveis de HDL era: níveis mais baixos de renda, maior IMC, maior prevalência de tabagismo, menor nível de atividade física, baixo consumo de frutas e vegetais, maior prevalência de hipertensão, diabetes, doença pulmonar, e perfil lipídico desfavorável. Estes fatores são conhecidos por estarem associados com risco aumentado de morbidade e mortalidade.

Os pesquisadores discutem que não há uma boa explicação biológica para entender por que um baixo nível de colesterol HDL deve fazer isso. A hipótese levantada pelos autores é que talvez “não é o baixo colesterol HDL que leva a estes problemas, mas sim, outros fatores, ligados ao estilo de vida pouco saudável (alimentação desequilibrada, alto IMC, sedentarismo, etilismo, tabagismo, baixo consumo de frutas e verduras, etc) possam estar diretamente ligados a “causa” que determine a maior ocorrência de morbimortalidade por problemas cardiovasculares e outras doenças, como o câncer, em em indivíduos com baixo HDL.

O que tudo isso significa na prática?

Que apesar da necessidade de mais investigações sobre a relação entre o colesterol HDL baixo e doenças cardíacas (existem alguns grandes ensaios clínicos com drogas que elevam o HDL que estão em curso), os resultados disponíveis já sinalizam que é improvável que seja útil tomar medicamentos “unicamente” com a finalidade de elevar os níveis de colesterol HDL. Portanto, para indivíduos com HDL baixos, este estudo reforça que a prática de exercício e uma dieta saudável para o coração são as melhores prescrições a seguir, sendo benéfico não só para diminuir os riscos cardiovasculares, mas também para reduzir outros problemas de saúde, entre eles o câncer.

Referencias:

  1. Kannel  W.B., Dawber  T.R., Friedman  G.D., Glennon  W.E., McNamara  P.M.; Risk factors in coronary heart disease: an evaluation of several serum lipids as predictors of coronary heart disease; the Framingham Study. Ann Intern Med. 1964;61:888-899.
  2. Toth  P.P., Barter  P.J., Rosenson  R.S., et al; High-density lipoproteins: a consensus statement from the National Lipid Association. J Clin Lipidol. 2013;7:484-525..
  3. Rader  D.J., Hovingh  G.K.; HDL and cardiovascular disease. Lancet. 2014;384:618-625.
  4. Castelli  W.P., Garrison  R.J., Wilson  P.W., Abbott  R.D., Kalousdian  S., Kannel  W.B.; Incidence of coronary heart disease and lipoprotein cholesterol levels: the Framingham Study. JAMA. 1986;256:2835-2838.
  5. Gordon  D.J., Probstfield  J.L., Garrison  R.J., et al; High-density lipoprotein cholesterol and cardiovascular disease: four prospective American studies. Circulation. 1989;79:8-15.
  6. Frick  M.H., Elo  O., Haapa  K., et al; Helsinki Heart Study: primary-prevention trial with gemfibrozil in middle-aged men with dyslipidemia: safety of treatment, changes in risk factors, and incidence of coronary heart disease. N Engl J Med. 1987;317:1237-1245.
  7. Barter  P.J., Caulfield  M., Eriksson  M., et al;for the ILLUMINATE Investigators Effects of torcetrapib in patients at high risk for coronary events. N Engl J Med. 2007;357:2109-2122.
  8. Cannon  C.P., Shah  S., Dansky  H.M., et al;for the Determining the Efficacy and Tolerability Investigators Safety of anacetrapib in patients with or at high risk for coronary heart disease. N Engl J Med. 2010;363:2406-2415..
  9. Landray  M.J., Haynes  R., et al;HPS2-THRIVE Collaborative Group Effects of extended-release niacin with laropiprant in high-risk patients. N Engl J Med. 2014;371:203-212..
  10. Boden  W.E., Probstfield  J.L., et al;AIM-HIGH Investigators Niacin in patients with low HDL cholesterol levels receiving intensive statin therapy. N Engl J Med. 2011;365:2255-2267.
  11. Schwartz G., Olsson  A.G., Abt  M., et al;for the dal-OUTCOMES Investigators Effects of dalcetrapib in patients with a recent acute coronary syndrome. N Engl J Med. 2012;367:2089-2099.
  12. Ridker  P.M., Genest  J., Boekholdt  S.M., et al;for the JUPITER Trial Study Group HDL cholesterol and residual risk of first cardiovascular events after treatment with potent statin therapy: an analysis from the JUPITER trial. Lancet. 2010;376:333-339. Ridker M., Genest  J., Boekholdt  S.M., et al;for the JUPITER Trial Study Group HDL cholesterol and residual risk of first cardiovascular events after treatment with potent statin therapy: an analysis from the JUPITER trial. Lancet. 2010;376:333-339.
  13. Silbernagel , Schottker  B., Appelbaum  S., et al; High-density lipoprotein cholesterol, coronary artery disease, and cardiovascular mortality. Eur Heart J. 2013;34:3563-3571.
  14. Voight F., Peloso  G.M., Orho-Melander  M., et al; Plasma HDL cholesterol and risk of myocardial infarction: a mendelian randomisation study. Lancet. 2012;380:572-580..
  15. Angeloni , Paneni  F., Landmesser  U., et al; Lack of protective role of HDL-C in patients with coronary artery disease undergoing elective coronary artery bypass grafting. Eur Heart J. 2013;34:3557-3562.
  16. Lloyd-Jones M.; Niacin and HDL cholesterol—time to face facts. N Engl J Med. 2014;371:271-273.
  17. Ko DT, Alter DA, Guo H, et al. High-Density Lipoprotein Cholesterol and Cause-Specific Mortality in Individuals Without Previous Cardiovascular Conditions: The CANHEART Study. J Am Coll Cardiol. 2016;68(19):2073-2083. doi:10.1016/j.jacc.2016.08.038.
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