Notícias sobre Dietas. No que acreditar?

Recentemente o portal de notícias da Escola de Saúde Pública de Harvard, publicou um post sobre o problema atual do bombardeio de informações sobre dietas e nutrição transmitidas pela mídia jornalística de forma irresponsável, pois, muitas vezes, descobertas ainda imaturas, não consideradas dentro de um contexto evolutivo de pesquisas e evidências plausíveis e substanciadas, são tratadas como verdades absolutas, e, acabam por produzir um desserviço à saúde pública em geral, ao guiar de forma incorreta hábitos e escolhas alimentares. Diante da importância deste assunto, apresentamos a seguir o conteúdo deste post da Escola de Saúde Pública de Harvard em português.
Notícias sobre dietas, alimentação e nutrição estão em toda parte, nos jornais, nos blogs pessoais e nos artigos de nutrição. Mas esse fluxo constante de informações pode se tornar difícil para os leitores distinguir se a informação é confiável ou não, ou seja, se provém de pesquisa de qualidade, bem conduzidas, daquelas pesquisas resultantes de estudos “fracos” (que não foram adequadamente planejados e/ou analisados) e de manchetes sensacionalistas.
Pesquisas de qualidade em saúde e nutrição são complexas e precisam ser interpretadas com cautela, considerando seus potenciais e limitações, porém a mídia jornalística, muitas vezes, acaba veiculando a informação de forma “simplista” ou “sensacionalista”. Geralmente eles relatam resultados de um único estudo preliminar que ainda não foi confirmado ou reproduzido por outros pesquisadores, ou, destacam um determinado estudo, porque este contradiz as recomendações de saúde atuais – ou seja, em outras palavras, o objetivo é prender a atenção do leitor pelo título.

É importante lembrar que:

A investigação científica é um processo contínuo, com um fluxo constante de novos estudos publicados a cada mês e é desta forma, que as evidências vão se construindo. Devido às recomendações nutricionais serem realizadas com base no conhecimento científico disponível naquele momento, as orientações podem mudar à medida que novas pesquisas se tornam disponíveis.
Contradições entre as pesquisas publicadas podem ocorrer, pois são parte inevitável e saudável do processo de conhecimento e descobertas científicas.
Nem todos os estudos científicos são criados iguais. Alguns tipos de estudos são mais confiáveis do que outros. E estudos recentes não são necessariamente mais confiáveis do que os estudos mais antigos.
O que falta na mídia é contexto. Histórias de dieta nas notícias, muitas vezes, fornecem pouca informação sobre como os resultados recentemente notificados se encaixam com a evidência existente sobre o tema, o que pode resultar na supervalorização desse novo estudo.
O processo de pesquisa pode parecer confuso para o público, à medida em que os estudos se contradizem. No entanto, quando vistos em um contexto apropriado (algo muitas vezes esquecido na cobertura da mídia), permite ao leitor decidir se um estudo de pesquisa é confiável ou não.

Aqui estão 7 perguntas que servem como um “radar de confiabilidade” para ajudar distinguir a qualidade do conteúdo das notícias de saúde e nutrição.

1) Como é que os resultados desse novo estudo se encaixam em todo o corpo de evidências disponíveis sobre o assunto? Qual é o peso desta evidência?

2) Os resultados divulgados resultam de um único estudo? Um único estudo raramente é suficiente para justificar que as pessoas mudem os seus hábitos com base nos resultados. Alguns artigos fornecem este pano de fundo, mas às vezes, você terá que buscar mais resultados de pesquisas de seu próprio país.

3) O tamanho da amostra foi grande? Estudos com participação de um grande número de pessoas, muitas vezes, fornecem resultados mais confiáveis do que aqueles realizado com menor tamanho amostral.

4) O estudo foi feito em animais ou em seres humanos? Muitos estudos importantes foram realizados em animais, isto fornece indícios de que pode ter o mesmo comportamento em humanos, porém, antes de extrapolar os mesmos resultados aos seres humanos, e, melhor entender como os alimentos e os nutrientes afetam a saúde humana, é necessário, na medida do possível, que eles também sejam reproduzidos em seres humanos.

5) O estudo verificou o estágio final de um processo de doença, como as doenças do coração ou osteoporose? Essas doenças, muitas vezes, levam muitas décadas para se desenvolver. Para evitar a espera por muito tempo, os pesquisadores, optam por avaliar marcadores de doenças, como por exemplo, o estreitamento das artérias ou a densidade mineral óssea. No entanto, estes marcadores nem sempre desencadeiam a doença.

6) Como a dieta foi avaliada? Alguns métodos de avaliação dietética são melhores do que outros. Bons estudos serão capazes de mostrar uma metodologia sólida.

7) Qual é o tipo de estudo? Existem várias categorias diferentes, incluindo os estudos de coorte, ensaios clínicos randomizados, meta-análises, revisões sistemáticas, estudos caso-controle e estudos com animais. O pesquisador Dr. Frank Hu, do departamento de Nutrição de Harvard, sintetiza porque alguns tipos de estudos são considerados mais confiáveis do que outros:

Os estudos considerados “padrão ouro” são os chamados ensaios clínicos randomizados de intervenções dietéticas sobre doenças, tais como o câncer e as doenças cardíacas. No entanto, esses ensaios são muitas vezes inviáveis, devido ao alto custo, baixa adesão dos participantes a longo prazo, além de das questões éticas envolvidas. Na ausência de evidências resultantes dos ensaios clínicos existem os estudos prospectivos de coorte, que envolvem um grande número de participantes, aparentemente, saudáveis, que são seguidos por anos ou décadas, a fim de se verificar a evolução das doenças. Os estudos de coorte são geralmente superiores aos estudos do tipo caso-controle ou de estudos transversais, que são sujeitos a erros (viés), devido ao relato da dieta pelos participantes e seleção deles para compor o grupo controle.
Estudos em animais podem ajudar a compreender os mecanismos das doenças, mas os resultados, podem não se aplicar aos seres humanos. Ensaios de intervenção menores em humanos sobre dieta e biomarcadores, tais como a glicemia ou colesterol, também podem ajudar a esclarecer os mecanismos biológicos, e, as evidências de tais ensaios podem complementar os resultados a partir de grandes estudos de coorte. Por fim, resultados de vários tipos de estudos, sejam eles, de coorte e ensaios de intervenção, poderão ser usados para elaborar as diretrizes e as políticas alimentares, quando sistematizados em análises conjunta, como é feito em importantes meta-análises e revisões sistemáticas, porém, elas devem ser realizadas com cuidado e rigor científico e interpretadas à luz da totalidade das evidências.

O texto original em inglês está disponível em: http://www.hsph.harvard.edu/nutritionsource/2016/03/18/diet-in-the-news-what-to-believe/

Assista também a entrevista da jornalista Francine Lima sobre este assunto (Tema: “A mídia não é a sua nutricionista”) em: https://www.youtube.com/watch?v=jeKY4GFASRQ

Onde encontrar informações confiáveis sobre saúde e nutrição:
– World Health Organization: http://www.who.int/topics/nutrition/en/
http://www.who.int/topics/diet/en/
– Harvard, School of Public Health: http://www.hsph.harvard.edu/nutritionsource/
– Centers for Disease Control and Prevention: http://www.cdc.gov/nutrition/index.html
– The European food information council: http://www.eufic.org/index/en/show/professionals/
– Rede de Alimentação e Nutrição do Sistema Único de Saúde: http://ecos-redenutri.bvs.br/tiki-view_articles.php
– Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (Brasil): http://www.fao.org/brasil/pt/
– Ministério da Saúde: http://www.portal.saude.gov.br
– Instituto Alana: http://alana.org.br/

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