A IMPORTÂNCIA DO NUTRICIONISTA PARA UMA NAÇÃO.

Ao ignorar as causas profundas e atuais das principais doenças e negligenciar a prioridade de mudanças no estilo de vida, que necessariamente inclui a nutrição adequada, governos, gestores, associações de classe, operadoras de saúde e a comunidade médica em geral está colocando a vida das pessoas em risco e, no nível coletivo, onerando os cofres públicos com gastos desnecessários com doenças e mortes que poderiam ser evitáveis.

Vários são os estudos que respaldam esta afirmação. E é sobre isto que iremos discorrer neste texto.

Nos últimos anos, observamos vários avanços em tecnologias e tratamentos de doenças crônicas, porém evidências atuais apontam que os tratamentos médicos atingiram seu limite, quanto a conter os agravos à saúde, e, agora as melhores formas de reverter este cenário é investir em mudanças no estilo de vida, dando destaque maior para a boa alimentação.  Neste contexto, pesquisa publicada na revista JAMA Cardiologia revela que depois de décadas de reduções nas taxas de mortes por doenças cardiovasculares (DCV), atualmente não se observa mais declínio significativo. Os resultados soam de forma alarmante, pois deixa claro que os benefícios de intervenções médicas atingiram um ponto de saturação e que para avançar em melhorias à saúde dependemos fundamentalmente de mudanças comportamentais, principalmente alimentação adequada, ressaltando desta forma a importância do acompanhamento nutricional pelo profissional Nutricionista.

Outra pesquisa que reforça está afirmação é a “National Health and Nutrition Examination Survey”, a qual mostrou progressos na redução do tabagismo, da hipertensão e do colesterol elevado, fortemente relacionado ao uso de medicações.  Porém, os autores destacam que devido a ausências de mudanças efetivas nos hábitos comportamentais, focadas em alimentação saudável e atividade física, muitas pessoas se tornaram obesas e desenvolveram diabetes tipo 2. Eles encontraram porcentagem muito baixa de adultos que consumiam dieta saudável com potencial para minimizar os danos à saúde e prevenir doenças crônicas, e verificaram que a prevalência de obesidade e de diabetes, no período avaliado, aumentou de forma alarmante.

No Brasil, pesquisa recente publicada na Revista American Journal of Preventive Medicine mostrou que aproximadamente 57.000 mortes prematuras ocorridas no país em 2019, podem ser atribuídas ao consumo de alimentos ultraprocessados (AUP). Os pesquisadores alertam que este número é maior do que o total de homicídios no país e que se consumo brasileiro de AUP chegar ao patamar dos Estados Unidos, serão quase 200 mil mortes prematuras anuais.

Caso nenhuma intervenção no comportamento alimentar e estilo de vida seja adotada, as projeções para o futuro são muito preocupantes. Estimativas publicadas na revista Scientific Reports indica que 68% dos brasileiros estarão com sobrepeso até 2030 e cerca de 1 em cada 3 adultos serão obesos. Entre os obesos, a previsão é de que 9,3% estarão nos níveis 2 e 3, os patamares mais altos, quando crescem significativamente os riscos de doenças como hipertensão, diabete e alguns tipos de câncer.

O relatório World Obesity Atlas também faz projeções, coloca o Brasil como o 4º país com mais obesos do mundo em 2030, em números absolutos, atrás somente de Estados Unidos, China e Índia.

Dados do Ministério da Saúde mostram que a cada 1 minuto no país morre uma pessoa vítima de doença cardiovascular (DCV). Este número vem aumentando entre pessoas jovens. Entre os principais causadores da DCV está o  estilo de vida, que inclui maus hábitos alimentares e doenças relacionadas a ele como obesidade, hipertensão arterial e o diabetes.

Se por um lado convivemos com “doenças do excesso”, por outro extremo assistimos indignados, a situação de extrema carência nutricional sofrida por alguns grupos marginalizados da sociedade, como os indígenas. Recentemente organização não governamental Survival divulgou dados que mostram que crianças Yanomamis estão morrendo de desnutrição 191 vezes mais do que a média nacional, sem nenhuma assistencia nutricional, vítimas do abandono político, social.

Desta forma, torna-se imperativo monitorar cenários nutricionais distintos, para oferecer assistência nutricional de forma humanizada a todos, sendo, portanto, imperativo investir, valorizar e ampliar a atuação do nutricionista, em seus diversos cenários.

Muito além de dietas, o nutricionista atua na construção e promoção de bons hábitos alimentares e a favor da vida e a sua principal ferramenta de trabalho é respaldada pelo Direito Humano à Alimentação, garantido pela Constituição Brasileira. Seu trabalho está diretamente relacionado à promoção da saúde e qualidade de vida. A base de sua formação profissional está alicerçada no respeito à individualidade, a cultura alimentar, aos aspectos ambientais, socioeconômicos, psicoafetivo, social e simbólico, fatores que são fortemente construídos durante a formação acadêmica e respaldados pelo código de ética que rege a profissão.

Divulgar a importância do profissional de nutrição em diversos contextos de saúde humana e lutar pela valorização do seu trabalho em diversos cenários é uma tarefa urgente que precisa ser realizada com a união dos profissionais e organizada pelos seus conselhos de classe, regional e nacional, articulada fortemente junto ao poder público.

Os gestores e a população precisam ser convencidos que garantir uma nutrição saudável desde a concepção gera impactos positivos na longevidade saudável, ganhos substanciais em qualidade de vida, minimiza os impactos ambientais e reduz os gastos desnecessários com tratamento de doenças evitáveis, desonerando os cofres públicos, devendo ser prioridade para a política pública.

Escrito por: Rosangela A Augusto Ginotti Pires- pós doutora em Nutrição-FSP/USP.

Referencias:

Eduardo A.F. et al. Premature Deaths Attributable to the Consumption of Ultraprocessed Foods in Brazil. American Journal of Preventive Medicine. 2022;1-8. DOI: https://doi.org/10.1016/j.amepre.2022.08.013.

Bodai BI, et al. Lifestyle Medicine: A Brief Review of Its Dramatic Impact on Health and Survival. Perm J. 2018; 22:17-025. doi: 10.7812/TPP/17-025. PMID: 29035175; PMCID: PMC5638636.

Sidney S, Quesenberry CP, Jr, Jaffe MG, et al. Tendências recentes na mortalidade cardiovascular nos Estados Unidos e de Saúde Pública Metas. JAMA Cardiol.  2016. doi: 10,1001 / jamacardio.2016.1326.” Disponível em: http://cardiology.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=2530559

The “Heart Disease and Stroke Statistics—2013 Update” and the Need for a National Cardiovascular Surveillance System. Stephen Sidney, Wayne D. Rosamond, Virginia J. Howard and Russell V. Luepker and on behalf of the National Forum for Heart Disease and Stroke Prevention. Circulation. 2013;127:21-23, published online before print January 2, 2013. Disponível em: http://circ.ahajournals.org/content/127/1/21

Estivaleti, J.M., Guzman-Habinger, J., Lobos, J. et al. Time trends and projected obesity epidemic in Brazilian adults between 2006 and 2030. Scientific Reports 12, 12699 (2022). https://doi.org/10.1038/s41598-022-16934-5

2 Comentários

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2 Respostas para “A IMPORTÂNCIA DO NUTRICIONISTA PARA UMA NAÇÃO.

  1. Avatar de Liliana Gonçalves Liliana Gonçalves

    Excelente artigo e talvez mais do que isso, um protesto contra a falta de
    politicas publicas de valorização do papel dos nutricionistas na saude básica dos brasileiros ! Nossa profissão é infelizmente tratada como área de apoio ao tratamento principal que é o médico! se políticas públicas fossem elaboradas para obrigarem a presença do nutricionista do prenatal até os 5 anos de idade da criança , boa parte das doenças crônicas não transmissíveis geradas na infância poderiam ser evitadas!

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