Preciso consumir algum suplemento vitamínico?

suplemntsA dúvida “Preciso consumir algum suplemento vitamínico?” é muito comum atualmente, pois somos bombardeados a todo momento por propagandas que tentam nos convencer que é muito difícil manter uma boa alimentação e que o caminho mais fácil para se obter saúde é consumir uns comprimidinhos e pronto, não é mesmo? Para alertar sobre isto renomados pesquisadores da Johns Hopkins Medical Institutions, uma das mais respeitadas instituições de pesquisa do mundo, publicaram um editorial no Anals of Internal Medicine com o seguinte título “Parem de desperdiçar dinheiro com suplementos de vitaminas e minerais” .

Tal constatação está baseado em importantes estudos publicados recentemente na literatura, os quais verificaram que o uso indiscriminado e contínuo de suplementos dietéticos por indivíduos saudáveis não apresenta nenhum efeito benéfico ao organismo e, em alguns casos, pode até ser prejudicial.

Entre os estudos citados está uma revisão sistemática1 realizada para medir o nível de evidência da eficácia de suplementos vitamínicos na saúde em adultos sem deficiências nutricionais. Nesta revisão, foram avaliados 24 estudos que utilizaram vitaminas individuais em mais de 400.000 participantes alocados aleatoriamente e outros três estudos que mediram o efeito do uso de suplementos multivitamínicos. A conclusão foi que não existe nenhuma evidência clara de efeito benéfico do uso de suplementos, utilizados individualmente ou combinados, sobre mortalidade por qualquer causa, doença cardiovascular ou câncer em indivíduos saudáveis.

Outra revisão2 avaliou a eficácia do uso diário de multivitamínico para evitar o declínio cognitivo em aproximadamente 6 mil homens maiores de 65 anos, participantes de importante estudo de seguimento intitulado “Estudo de Saúde de Médicos II”. Foi verificado que após 12 anos de acompanhamento, não houveram diferenças quanto ao desempenho cognitivo global ou a memória verbal entre os grupos placebo e o grupo que utilizou multivitaminas. A adesão à intervenção foi alta, e o grande tamanho da amostra resultou em estimativas precisas que mostram que o uso de um suplemento multivitamínico em uma população idosa saudável não impediu o declínio cognitivo. Estes resultados são compatíveis com uma revisão recente3 de 12 de ensaios de boa qualidade que avaliaram suplementos alimentares, incluindo multivitamínicos, vitaminas do complexo B, vitaminas E e C, e ômega-3 ácidos graxos, em pessoas com leve comprometimento cognitivo ou demência leve a moderada. Nenhum dos suplementos melhorou a função cognitiva. Por outro lado, quando o assunto é “comida de verdade”, pesquisas indicam que existem benefícios reais, evidenciando associação positiva entre um melhor padrão de consumo alimentar (rico em folhas verdes, frutas frescas, oleaginosas, proteínas magras e cereais integrais) e melhor desempenho cognitivo em idosos11.

Os autores citam também um estudo que avaliou os benefícios potenciais de uma alta dose de suplemento multivitamínico com 28 componentes em quase 2 mil homens e mulheres com infarto do miocárdio prévio4, não encontrou diferença significativa na ocorrência de eventos cardiovasculares recorrentes entre o grupo que utilizou multivitaminas e o grupo placebo, após 4,6 anos de seguimento.

O editorial cita também estudos importantes que avaliaram o papel dos suplementos vitamínicos e minerais na prevenção primária ou secundária de doenças crônicas e não encontraram resultados positivos, além disto, alguns verificaram possíveis riscos à saúde 5,6. Evidências envolvendo dezenas de milhares de pessoas selecionadas aleatoriamente em diversos ensaios clínicos mostram que β-caroteno, vitamina E, e, possivelmente, altas doses de suplementos vitamínicos estão associados a um aumento de mortalidade 6,7  e que outros antioxidantes 6, ácido fólico e vitaminas do complexo B8, e suplementos vitamínicos1-5 utilizados em indivíduos saudáveis não têm nenhum benefício claro.

Apesar das evidências preocupantes de nenhum benefício ou possível dano, o uso de suplementos vitamínicos aumentou entre os norte-americanos adultos 9 , e em 2006 seu uso era realizado por cerca de 40% das pessoas, enquanto o uso global de suplementos alimentares correspondia a 53% dos individuos.Tendências seculares mostram um aumento constante no uso de suplemento multivitamínico e um declínio no uso de alguns suplementos individuais, tais como β-caroteno e vitamina E. O declínio no uso de β-caroteno e vitamina E, provavelmente, deve-se a diversas divulgações sobre os resultados adversos a saúde, como a ocorrência de câncer de pulmão e mortalidade por todas as causas. Em contraste, as vendas de multivitaminas e outros suplementos não foram afetados por grandes estudos com resultados nulos, e a indústria de suplementos nos EUA continua crescendo, superando a ordem de US$ 28 bilhões em vendas anuais.

No Brasil, o mercado de suplementos alimentares tem registrado crescimento anual superior a 25% nos últimos cinco anos, frente a um incremento de apenas 5% no mercado norte-americano. A procura por melhor qualidade de vida associada à alimentação saudável tem impulsionado o segmento, que no último ano movimentou mais de R$ 1,5 bilhão no país.

As evidências acumuladas são importantes para saúde pública e para área clínica. A evidência é suficiente para aconselhar contra a suplementação de rotina, sem a devida investigação previa de deficiência nutricional. A mensagem é simples: a maioria dos suplementos não previne doenças crônicas ou morte, seu uso não é justificado para este fim, devendo ser evitado. Esta mensagem é verdadeira para a população em geral, sem evidência clara de deficiências de micronutrientes, que representam a maioria dos usuários de suplementos no mundo9. Vale deixar claro que esta afirmação não inclui as suplementações orientadas por profissionais competentes por curtos períodos de tempo para fins específicos, como por exemplo no caso dos suplementos prescritos para gestantes e o ácido fólico para mulheres em idade fértil, além é claro dos suplementos prescritos para indivíduos que possuem algum tipo de deficiência nutricional comprovada por meio de exames bioquímicos.

A evidência também tem implicações para a investigação. Antioxidantes, ácido fólico e vitaminas do complexo B são prejudiciais ou ineficazes para prevenção de doenças crônicas. A suplementação com vitamina D, no entanto, é uma área aberta de investigação, particularmente em pessoas deficientes, uma vez que os ensaios clínicos têm sido equivocados e/ou contraditórios.  Embora estudos futuros são necessários para esclarecer o uso adequado da suplementação de vitamina D, a utilização generalizada não se baseia em evidências sólidas de que os benefícios superam os danos10.

Outro fato preocupante é que estudos mostram que as alegações feitas nos rótulos de suplementos alimentares podem ser enganosas estando em desacordo com as recomendações dos órgãos responsáveis pela avaliação e liberação da comercialização destes produtos. Assim, a recomendação feita pelos pesquisadores é que os consumidores devem ser cautelosos com o uso de suplementos dietéticos, e também com o uso indiscriminado de produtos alimentícios fortificados comercializados, não se deixando influenciar pelo marketing agressivo aplicado a venda dos produtos.

Em conclusão: apenas os portadores de hipovitaminose, diagnosticados por exames laboratoriais,  necessitam de suplementos de vitaminas e sais minerais, e, devem consumir sob indicação e orientação de profissional competente. Um bom nutricionista pode também, por meio da avaliação do consumo alimentar habitual, rastrear possíveis deficiências nutricionais e, desta forma, melhor orientar a adequação do consumo alimentar, que satisfaça todas as necessidades nutricionais, respeitando as preferências alimentares de cada paciente. Da mesma forma que a falta, o excesso de vitaminas também é prejudicial. O consumo regular de “alimentos de verdade”, incluindo frutas, vegetais, cereais, carnes, peixes e leite, para a maioria da população, garante os nutrientes necessários para saúde. Finalizamos este texto deixando aqui para você leitor uma citação sábia de Hipócrates “Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio”.

Este texto foi baseado no editorial: Guallar E. et al. Enough is enough: Stop wasting money on vitamin and mineral supplements. Ann Intern Med. 2013;159(12):850-1.

Referencias citadas no texto:

  1. Fortmann S.P. et al.. Vitamin and mineral supplements in the primary prevention of cardiovascular disease and  cancer: an updated systematic evidence review for the U.S. Preventive Services Task Force. Ann Intern Med. 2013; 159:824-34.
  2. Grodstein F. et al. Long-term multivitamin supplementation and cognitive function in men. A randomized trial. Ann Intern Med. 2013; 159:806-14.
  3. Lin J.S. et al. Screening for cognitive impairment in older adults: a systematic review for the U.S. Preventive Services Task Force. Ann Intern Med. 2013; 159:601-12.
  4. Lamas G.A.  et al, TACT (Trial to Assess Chelation Therapy) Investigators. Oral high-dose multivitamins and minerals after myocardial infarction. A randomized trial. Ann Intern Med. 2013; 159:797-804.
  5. Huang H.Y. et al. The efficacy and safety of multivitamin and mineral supplement use to prevent cancer and chronic disease in adults: a systematic review for a National Institutes of Health state-of-the-science conference. Ann Intern Med. 2006;145: 372-85.
  6. Bjelakovic G, Nikolova D, Gluud C. Antioxidant supplements to prevent mortality.  2013; 310:1178-9.
  7. Miller E.R. et al. Meta-analysis: high-dosage vitamin E supplementation may increase all-cause mortality. Ann Intern Med. 2005; 142:37-46.
  8. Miller E.R. et al. Meta-analysis of folic acid supplementation trials on risk of cardiovascular disease and risk interaction with baseline homocysteine levels. Am J Cardiol. 2010; 106:517-27.
  9. Gahche J,  et al. Dietary supplement use among U.S. adults has increased since NHANES III (1988-1994). NCHS Data Brief. 2011; 1-8.
  10. Moyer VA, U.S. Preventive Services Task Force. Vitamin D and calcium supplementation to prevent fractures in adults: U.S. Preventive Services Task Force recommendation statement. Ann Intern Med. 2013; 158:691-6.
  11. Morris C.M. et al. MIND diet associated with reduced incidence of Alzheimer’s disease. Alzheimer’s & Dementia. 2015; 1-8.

créditos da imagem: freepik.com

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